El Niño pode estar associado a mais de 850 mil mortes por calor até março de 2027, estimam cientistas

El Niño pode agravar os efeitos do calor extremo. Entenda a estimativa de 857 mil mortes adicionais até março de 2027 e os riscos para o Brasil.

Resumo

Estudo do Climate Impact Lab estima aumento da mortalidade associada às temperaturas extremas e alerta para os riscos à saúde em diversos países, incluindo o Brasil.

03/11/2026

Projeção do Climate Impact Lab aponta cerca de 857 mil mortes adicionais associadas às temperaturas extremas entre junho de 2026 e março de 2027. O Brasil também aparece entre os países sob risco, enquanto pesquisadores alertam para a necessidade de ampliar os sistemas de prevenção e proteção da população.

O fenômeno climático El Niño pode contribuir para agravar os impactos do calor extremo em diversas regiões do planeta. Uma estimativa atualizada do Climate Impact Lab, iniciativa de pesquisa ligada a cientistas da Universidade de Chicago e da Universidade da Califórnia em Berkeley, projeta aproximadamente 857,4 mil mortes adicionais associadas às temperaturas entre junho de 2026 e março de 2027.

O número reúne estimativas referentes ao período já observado e projeções para os meses seguintes. Portanto, não representa uma contagem de mortes confirmadas nem significa que esse total necessariamente ocorrerá. Trata-se de uma estimativa estatística do impacto adicional do calor sobre a mortalidade, em comparação com uma referência histórica.

O alerta ganha importância diante da possibilidade de um episódio de El Niño excepcionalmente intenso, capaz de alterar os padrões de temperatura e chuva em diferentes partes do mundo.

O que explica a estimativa de mais de 850 mil mortes?

O cálculo foi desenvolvido com o apoio do El Niño Heat Mortality Tracker, ferramenta do Climate Impact Lab que combina dados climáticos observados, previsões sazonais e estudos científicos sobre a relação entre temperatura e mortalidade.

A versão consultada estima cerca de 484,5 mil mortes adicionais associadas ao calor no período já observado desde junho de 2026 e projeta outras 372,9 mil entre outubro de 2026 e março de 2027. A soma chega a aproximadamente 857,4 mil mortes adicionais estimadas.

Esses números podem mudar conforme novas temperaturas são registradas e as previsões climáticas são atualizadas.

Como o El Niño aumenta o risco?

O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial. Esse aquecimento altera a circulação atmosférica e pode modificar os padrões de chuva, vento e temperatura em escala global.

Seus efeitos variam conforme a região. Em alguns lugares, pode favorecer secas prolongadas e temperaturas elevadas; em outros, aumentar o risco de chuvas intensas e inundações. O fenômeno não provoca os mesmos efeitos em todos os países, nem determina sozinho a ocorrência de cada evento extremo.

Quando o El Niño atua em um planeta já aquecido pelas mudanças climáticas causadas pelas atividades humanas, os episódios de calor podem se tornar ainda mais preocupantes.

Quais países podem sofrer os maiores impactos?

Segundo o painel do Climate Impact Lab, as projeções de mortes adicionais associadas ao calor entre outubro de 2026 e março de 2027 apontam riscos elevados em diferentes regiões da África e da Ásia, além do Brasil.

PaísMortes adicionais estimadas no período projetado
Nigéria56 mil
Índia55 mil
Indonésia29 mil
Brasil19,5 mil
Sudão14,7 mil

Valores aproximados, referentes às projeções do painel consultado para outubro de 2026 a março de 2027. São estimativas de modelagem, não registros confirmados de óbitos.

Os números indicam que os efeitos do calor extremo podem ser particularmente graves em regiões onde altas temperaturas se combinam com pobreza, moradias inadequadas, trabalho ao ar livre e acesso limitado à assistência médica.

A vulnerabilidade não depende apenas da temperatura registrada. A capacidade de adaptação das comunidades também influencia o risco de adoecimento e morte.

Brasil: calor extremo exige atenção à saúde pública

O Brasil aparece no levantamento com aproximadamente 19,5 mil mortes adicionais associadas às temperaturas no período projetado de outubro a março. Esse valor é uma estimativa nacional do modelo e não deve ser interpretado como uma previsão exata de quantas pessoas morrerão no país. Climate Impact Lab+1

O risco merece atenção especial em áreas urbanas densamente povoadas, onde o concreto, o asfalto, a escassez de árvores e a circulação limitada de ar podem intensificar o calor. Em regiões rurais, trabalhadores expostos ao sol e comunidades com acesso limitado à água potável também podem enfrentar condições perigosas.

Entre os grupos que merecem atenção estão:

  • Pessoas idosas e crianças pequenas.
  • Pessoas com doenças crônicas ou maior sensibilidade ao calor.
  • Trabalhadores da construção civil, da agricultura e de outras atividades externas.
  • Pessoas em situação de rua.
  • Famílias que vivem em moradias quentes, mal ventiladas ou sem acesso a formas de resfriamento.

Além do risco de desidratação e exaustão térmica, o calor intenso pode agravar problemas cardiovasculares e renais e aumentar a pressão sobre os serviços de saúde.

Como os cientistas chegaram aos números?

A estimativa combina dados de temperatura observada, informações de reanálise climática e previsões sazonais. Os pesquisadores utilizam modelos estatísticos que relacionam variações de temperatura à mortalidade, considerando diferenças regionais de clima, vulnerabilidade e capacidade de adaptação.

Isso significa que a ferramenta não identifica individualmente quem morrerá nem comprova que cada óbito adicional foi causado exclusivamente pelo El Niño.

A estimativa procura calcular quanto a mortalidade relacionada às temperaturas pode aumentar em relação a um período de referência. Os resultados também estão sujeitos às incertezas das previsões climáticas e dos próprios modelos.

O Climate Impact Lab informa que o rastreador é atualizado periodicamente e que a metodologia completa dessa aplicação ainda será detalhada em publicação científica revisada por pares.

O que pode ser feito para reduzir as mortes?

Embora não seja possível impedir o El Niño, medidas de adaptação podem reduzir os danos causados pelo calor extremo.

Entre as ações recomendadas para proteger a população estão:

  1. Emitir alertas antecipados: informar sobre ondas de calor e orientar a população sobre os cuidados necessários.
  2. Ampliar o acesso à água: garantir água potável e pontos de hidratação em áreas de maior exposição.
  3. Proteger trabalhadores: adaptar horários de atividades externas, oferecer pausas e disponibilizar sombra.
  4. Fortalecer a saúde pública: preparar unidades de saúde para atender ao aumento de casos relacionados ao calor.
  5. Criar espaços de resfriamento: disponibilizar locais ventilados e climatizados para pessoas vulneráveis.
  6. Ampliar a arborização urbana: preservar árvores, parques e áreas verdes que ajudam a reduzir o aquecimento local.
  7. Reduzir as emissões de gases de efeito estufa: acelerar a transição energética e diminuir a contribuição humana para o aquecimento global.

O Climate Impact Lab destaca a importância de sistemas de alerta, acesso à assistência médica, centros de resfriamento e medidas de proteção para trabalhadores expostos ao calor.

Crise climática: a prevenção precisa começar antes das ondas de calor

O alerta sobre as possíveis consequências do El Niño evidencia que os riscos climáticos vão além de secas, incêndios florestais e tempestades. O calor extremo também representa uma ameaça direta à saúde humana e pode aumentar a mortalidade em escala global.

Para enfrentar esse cenário, governos precisam investir em prevenção, infraestrutura urbana, serviços de saúde e políticas de adaptação. Ao mesmo tempo, a redução das emissões e a proteção dos ecossistemas são fundamentais para limitar os impactos futuros das mudanças climáticas.

A atuação de organizações ambientais, como o INNAMA – Instituto Nacional do Meio Ambiente, também é importante para disseminar informações confiáveis, promover educação ambiental e incentivar a participação da sociedade na defesa da vida e do meio ambiente.

O desafio não é apenas prever quantas vidas podem ser afetadas, mas transformar os alertas científicos em ações capazes de salvar vidas.

Fontes principais para consulta: Climate Impact Lab — El Niño Heat Mortality Tracker e Universidade da Califórnia em Berkeley — estudo de setembro de 2026.

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